Websérie paraense “Pretas”, que custou apenas R$350, é destaque em festival na França

Com direção de Lucas Moraga, a websérie “Pretas” foi feita pela produtora Invisível Filmes. Imagem: Reprodução

Que a produção cultural de Belém, é muito rica, ainda que a necessidade de profissionalização da gestão – pública e privada – seja urgente e cada vez mais obrigatória por parte de governantes e realizadores, sabe-se (reconhece-se) há muito tempo.

No entanto, nos últimos anos, principalmente através da produção audiovisual (e também a musical, notemos), este cenário – finalmente – parece estar sendo modificado, com maior investimento de tempo (sim!), coragem e vigor para apostar em conteúdos inovadores e sua circulação; e, por fim, com maior pensamento estratégico. Exemplo disto é a websérie paraense “Pretas”, que possui roteiro de Hian Denys, Othon Montalvão e Lucas Moraga (que assina também a direção da obra).

A série possui como protagonista Abigail, interpretada por Rosilene Alves, uma pugilista que enfrenta um verdadeiro caleidoscópio de desafios: criar a filha pequena, seguir na carreira e os preconceitos por ser mulher e negra na Amazônia.

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O piloto da websérie, que desde o início foi concebida para ter episódios independentes (o que facilita sua circulação em diversos meios, festivais e outras “janelas” de exibição) quebrou inúmeras barreiras e fugiu das desculpas que muitos adoram dar para justificar a pouca ou nenhuma vontade de desenvolver algo e mesmo encarar grandes desafios.

Com investimento mínimo, muita coragem e bom trabalho estético, o filme chegou ao Festival du Court métrage de Clermont-Ferrand este ano. Imagem: Reprodução

Em 2016, “Pretas” venceu o Festival Osga de Vídeos Universitários, da Universidade da Amazônia; em 2017, o Festival da Freguesia do Ó, em São Paulo; e foi selecionada para o 39º Festival du Court métrage de Clermont-Ferrand, na França, um dos maiores festivais de cinema do mundo. Detalhe: o primeiro capítulo custou apenas R$350,00. Isto mesmo: menos da metade de um salário mínimo (que, sabemos, é ínfimo e não atende as necessidades básicas de milhões de brasileiros).

Embora muita gente ainda associe produção audiovisual com altos custos, grande equipe e a necessidade dos mais novos equipamentos, como se vê, com um pequeno valor a obra alcançou grande visibilidade e retorno. Tudo isto foi possível por conta de um jovem de grande talento e coragem: o paraense Lucas Moraga, de apenas 22 anos, que atualmente é concluinte no curso de Publicidade e Propaganda e “luta pelo audiovisual como estilo próprio de vida e sonhos”, como se auto define.

A trajetória do jovem, que afirmou que suas grandes inspirações no cinema são “Tim Burton, através dele conheci um cinema incrível na infância. Hitchcock com suas obras fantásticas. E atualmente todos os irmãos e irmãs negros(as) que se aventuram em fazer o audiovisual”, merece destaque.

“Apesar do pouco tempo no audiovisual já acumulo alguns títulos. Na minha filmografia já constam 14 premiações, incluindo premiações principais de melhor filme, e 12 seleções oficiais em variados festivais nacionais e internacionais”, diz Moraga, que em 2015 também recebeu o Prêmio de Melhor Curta no Festival Osga pelo filme “Pôr da Terra” e que em 2016 recebeu menções honrosas no Festival de Audiovisual de Belém.

Veja o primeiro episódio da websérie:

“Pretas” do poder

Em uma época em que ganha maior destaque discussões sobre empoderamento e a necessidade de se refletir, cada vez mais, sobre o papel político da arte, o filme apresenta temas que por vezes são “escondidos” de grandes debates, como racismo e o papel da mulher, em especial na Amazônia.

“Desde o começo tínhamos noção do campo de batalha em que estávamos entrando e apesar do medo estamos encarando com muito respeito e força. Fazer cinema negro é politizar. É denunciar. É principalmente desmitificar que o negro não tem talento para protagonizar histórias”, enfatiza Lucas.

A equipe de produção de “Pretas” prepara os novos episódios da websérie. Foto: Reprodução/Facebook

Política e estética se unem e ajudam a tocar vidas, seguindo aquilo que Ana Margarida da Costa Ribeiro (2008) afirmou ao dizer que “em mais de cem anos de existência, o cinema criou, moldou e difundiu uma enorme quantidade de imagens e pensamentos sobre essas imagens e sobre o mundo”. Uma obra, então, vai além da tela (seja qual for o tipo de tela atualmente) e pode impactar inúmeras vidas.

“Com a websérie no ar há menos de três meses já recebemos diversos relatos de como a história alcançou e impactou quem assistiu e isso é incrível. Não tínhamos uma real dimensão disso antes, mas agora começamos a ter bem mais. E ficamos muito contentes com isso”, destaca Lucas.

Como se vê, além da importância estética, é claro, a obra também se destaca pela circulação e caráter político e social e mostra também a alunos e professores que o incentivo e luta pelo que se acredita (ainda que seja algo clichê) e a preparação para isto (o que muitas vezes é deixado de lado), são fundamentais e rendem bons frutos.

Sobre isto, o diretor comenta que “primeiramente é importante observar que jamais podemos desprezar o que fazemos dentro da universidade enquanto produção. Basta ter empenho, correr atrás e fazer acontecer. Estar sendo exibido fora do país é uma sensação única e nos dá esperanças gigantes de um dia estar em grandes festivais exibindo nosso trabalho e vivendo disso”. Para isto, no entanto, é necessário maior investimento e pensamento e planejamento estratégicos.

Continuação da websérie depende de você!

Desde 7 de março, a produtora Invisível Filmes está com uma campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) para arrecadar o valor necessário para produzir de forma mais ampla a continuidade da série.

De acordo com a descrição da campanha, “em ‘Pretas’ visamos um chamamento para o problema da ausência de representatividade negra em produções cinematográficas. Levando em conta aspectos culturais. Tudo de forma metafórica e ficcional que passe uma maior ideia de como isto está presente tão fortemente em nossas vidas”.

Diz ainda a descrição que “dentro dessa proposta começaremos a debater, ainda que de forma inconsciente, qual o papel dessa presença negra sendo protagonista de suas próprias histórias, tendo como alvo principal a mulher negra. Pretendemos inscrever o piloto da websérie em festivais regionais, nacionais e internacionais para uma maior visibilidade do assunto, divulgação de que o audiovisual no Pará é uma realidade e que possuímos um material de qualidade”.

Tudo isto, como se sabe, depende de um ponto de partida que é a coragem de fazer diferente. Com diversas possibilidades via internet, isso não se torna necessariamente mais fácil, mas certamente bem mais possível. “Eu sigo um lema desde o começo: Independente de ter ou não equipamento. De saber ou não manusear. Escrever um roteiro. Vai e faz. A internet está ai para nos ajudar e eu digo que um dos meus maiores professores foram os tutoriais do Youtube. O ‘segredo’ é nunca parar na primeira produção por achar amadora demais. A evolução vai se dar na prática, fazendo mais filmes, convivendo com mais pessoas e vivendo mais histórias”, explica Lucas.

É ainda o diretor, quando perguntado ainda onde pode chegar que dá um exemplo de estímulo e confiança típicas de quem sabe de fato o que está fazendo e que já começa a caminhar de forma mais firme na produção cultural: “minhas asas estão abertas e alçando voos. Não sei exatamente onde quero chegar, o meu ‘ir’ faz o caminho. Sou um caçador de histórias”, finaliza.

Colabore

Conheça mais sobre o projeto de financiamento coletivo para a continuidade da websérie, as contrapartidas e outras informações clicando aqui. Colabore para fazer o cinema brasileiro, da Amazônia, cada vez mais forte!

Por Enderson Oliveira

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