Pena e pixels: as ilustrações e colagens de Paulo Victor Dias

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Coco12nut. Digital Painting and Indian Ink. 2014.

Traço sujo, mas preciso. Maldito, mas não proscrito. Sem vergonha, mas com talento. Esses termos podem ser considerados pistas para definir as obras de Paulo Victor Dias, ou simplesmente PV, ilustrador amazônico.
Sem grandes convenções, apostando na simbiose entre azul-vermelho-amarelo, ironias e homenagens, o artista foge aos clichês, inclusive ao próprio clichê da fuga dos mesmos. Sem deixar de lado parcerias, apresenta séries e compilações em que cores e valores são retomados e, principalmente, rediscutidos.
PV deu os primeiros traços ainda na adolescência. “Todo mundo desenha quando é mais novo, porém quando chegamos em certo momento começamos a retratar formas, volumes e dar de cara com alguns regrismos técnicos. Aí podemos ser tomados por diversos estímulos contrários, muitas vezes de nossos pais, que acabam nos desestimulando. Em algum momento eu parei de desenhar, mas eu sempre gostei disso, de colar e pintar também, assim como qualquer outra criança que gosta disso”, conta.

Paulo Dias
Tendo a cidade como “observatório” e inspiração, o ilustrador vem ganhando destaque na produção contemporânea da Amazônia. Foto: Eduarda Rodrigues.

Foi ao iniciar o curso de Publicidade e Propaganda, no entanto, que seus traços começaram a ser vistos de modo diferente, até mesmo artístico. A fotografia contribuiu bastante para isto: não sua prática, mas suas teorias e discussões sobre. “Passei a apreciar a fotografia como registro imagético de um tempo ou uma cidade. Isso contribuiu muito para que eu pudesse me interessar em produzir ilustração e colagens, na maioria das vezes com influências da cidade contemporânea, que acredito ser a minha maior ‘inspiração’”, esclarece. Em 2012 e 2013 o que eram tentativas estéticas e divagações estilísticas arquivadas em seu computador ganharam o mundo através da internet: suas ilustrações digitais e colagens passaram a ser veiculadas em sua fanpage Coco12nut e seu site oficial.

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Sobre Sentimentos. Indian Ink and Digital Painting. 2014.

As obras de PV envolvem principalmente ilustração em nanquim e colagem, tanto a colagem tradicional quanto a mescla da tradicional com a digital. Do diálogo de sua pena com os pixels da mesa digitalizadora, surgiram as séries Red and Yellow, Yellow and blue, Cidade e About my references of life. Aparentemente despretensiosas, as ilustrações mostram a observação peculiar do artista, que converte suas vivências e experiências pessoais em traços, formas e cores.
Sua obra pode ser melhor discutida, analisada e mesmo compreendida (se é que arte deve ser “compreensível”…) por suas referências, que vão além de outros ilustradores e/ou artistas visuais. Paulo possui como referências teóricos a artistas com trabalhos de linguagens diferentes da sua, como o fotógrafo francês Eugène Atget, uma das pessoas que mais o induzem no modo refletir a representação do que tem ao seu redor em registro imagético, e o pesquisador Relivaldo Pinho de Oliveira, responsável pelo grupo de pesquisa Comunicação, antropologia e filosofia: estética e experiência na comunicação visual urbana da contemporaneidade de Belém do Pará, do qual faz parte.

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Colagem pb. 2014.

Já nas produções de gravuras, ilustrações e colagens, PV prefere trabalhos que não se relacionam muito com o que chama de “cadeia de regrismo estético”: “acho que sinceramente isso limita o trabalho. Em sua maioria o erro técnico pode se tornar o acerto estético”, explica. Neste panorama, é possível citar o coletivo israelense de ilustração Broken Fingaz, o artista russo Andrey Flakonkishochki, o paraense Márcio Alvarenga as animações e ilustrações de Run Wrake, alguns fanzines, entre outros.
A artista Ariane Mayumi, de São Paulo, também faz parte das referências de PV: “já tive e tenho quase sempre o prazer de fazer trabalhos juntos”, destaca. Com a ilustradora, Paulo fez dois “Duos”, série que há alguns meses se tornou sua nova investida. A série com outros artistas apresenta ainda obra com a ilustradora Camille Vasconcelos. Também integram seu portfólio colagens que põe em destaque a simbiose entre espaço urbano e férias. Seja on the road e/ou em algum trajeto em metrópoles, as colagens apresentam certa angústia e ironia: as férias podem ser de espaços e hábitos, mas nunca de si próprio.
Unindo em suas obras o incômodo da fotografia, a cidade, seus problemas, marcas e chagas, mas também o ser humano, solitário ainda que imerso na multidão, o ilustrador vem ganhando destaque, mostrando que o diálogo de sua própria pena e os pixels pode servir para analisar e discutir, mas que a arte contemporânea, pelo bem e pelo mal, nós mesmos.

Enderson Oliveira

 

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