Pelo bem, pelo mal, Oswald Canibal

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Imagem: Reprodução/videoclipe Oswald Canibal 

Há mais de um ano, mais precisamente em 13 de março de 2014, enviei um e-mail ao professor, pesquisador e músico Henry Burnett. O e-mail também era dirigido a Victória Costa, da produtora Fóton Filmes, e a Adriana Camarão, da empresa MCubo. Seu conteúdo, aparentemente simples, carregava em suas linhas, mais que um convite, uma proposta ousada: a produção de um videoclipe de alguma música de Henry.
Como esperado, a ideia de pronto foi aceita com entusiasmo por todos. De início, a sugestão era a canção Oswald Canibal, minha favorita. Outras, no entanto, chegaram a ser cogitadas e planejadas; pareciam ter preferência. Entretanto, quis o destino – e não somente eu – que, por algumas questões, a escolhida pela maioria no final das contas fosse mesmo Oswald Canibal.
Tudo aparentemente muito simples e bem resolvido (canção escolhida, parceiros definidos, datas e valores pensados), teve início a pré-produção do videoclipe, que contou com o financiamento coletivo através do site paraense Eu Patrocino. Ao todo, 24 pessoas contribuíram e tornaram possível a produção da obra. No entanto, as aparências “enganaram” e o processo de produção foi, apesar de curto, difícil e cansativo, seja pelas agendas de cada um, seja pela distância geográfica (dificuldades resolvidas com paciências, e-mails e conversas pela internet).

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Divulgação da campanha de crowdfunding para o videoclipe. Imagem: Reprodução

Como resultado, meses depois, tivemos um videoclipe denso e complexo que talvez possa ser “compreendido” (se é que o termo cabe aqui ou em qualquer outra discussão acerca de arte) ou mesmo analisado com a singela contribuição deste texto. Antes, porém, acredito que seja oportuno e necessário observar e conhecer um pouco mais a canção e Henry Burnett.

O cantor e a canção

Foto: Ronaldo Rosa
Henry Burnett. Foto: Ronaldo Rosa

Henry Burnett nasceu em Belém do Pará em 1971. Pós-doutor em Filosofia, atualmente é professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Como músico, possui quatro CDs gravados: o experimental “Linhas Urbanas”, 1996; “Não Para Magoar”, 2006; “Interior”, 2007, gravado em Buenos Aires em parceria com Florencia Bernales e o livro/CD “Retruque/Retoque”, 2010, em parceria com o poeta paraense Paulo Vieira. Além disso, Henry também produziu o CD “Depois da revoada”, 2012, junto com o músico e poeta paulistano Julio Luchesi. Conheça mais sobre o músico clicando aqui.
Já como pesquisador, Henry é autor do livro “Cinco prefácios para cinco livros escritos: uma autobiografia filosófica de Nietzsche” (Tessitura Editora, Belo Horizonte, 2008), da coletânea de ensaios sobre filosofia e música “Nietzsche, Adorno e um pouquinho de Brasil” (Editora Unifesp, 2011) e do volume da Coleção Leituras Filosóficas da Editora Loyola “Para ler O Nascimento da Tragédia de Nietzsche” (2012).

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O livro/CD Retruque/Retoque, de Vieira e Burnett. Imagem: Reprodução

Com tal repertório, não é de se estranhar que Oswald Canibal, resultado da parceria de Henry com Vieira, também seja fruto de uma simbiose de fatores, referências e estilos: da poesia modernista de Oswald Andrade e a filosofia contemporânea de Benedito Nunes, passando pelo interstício que une (pelo bem, pelo mal) São Paulo e Belém do Pará. A canção “fala” da ambição do modernista Oswald e cita o recorrente diagnóstico de Benedito Nunes sobre o esfacelamento de Belém. Em meio a efervescência cultural contemporânea da cidade, a música chama a atenção para problemas que existem e persistem na capital do estado:

Como vai aí no inferno, afinal?
por aqui vamos bem, vamos mal,
até você, canibal, daria risada
e passaria aperto nesta selva magricela

Segundo Paulo Vieira, o mote para a composição foi o livro “Um homem sem profissão”, primeiro e único volume da autobiografia de Oswald Andrade, que seria escrita em cinco volumes, mas interrompeu-se pela morte do autor. Indo além, há também na canção a referência a Benedito Nunes, um dos melhores críticos do modernista, autor do livro “Oswald Canibal”, investigação profunda do pensamento do poeta da antropofagia. É daí que vem a referência ao “canibalismo” na letra da canção e no título do livro de Benedito. “A música não se refere ao livro de Benedito diretamente, só o título é que foi tomado ’emprestado”, esclarece Vieira.
De acordo com Burnett, ao referir-se ao cenário apresentado na canção, “o Brasil – principalmente suas capitais – estão cada vez mais parecidas; infelizmente elas se igualam pela destruição, e não pela incorporação de elementos positivos. O cenário pode ser atribuído às artes em qualquer lugar do Brasil”, destaca o músico.

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Fugindo de uma imagem “turística”, o clipe apresenta uma Belém decadente, cujo grande ícone é a noite vazia do centro da cidade, que ao mesmo tempo encanta e assusta.  Imagem: Reprodução/ videoclipe Oswald Canibal

Não por acaso, os locais escolhidos para a gravação do videoclipe foram os bairros do Comércio, Reduto e da Cidade Velha, ícones das transformações não somente arquitetônicas e urbanas pelas quais passa Belém, mas também estéticas e sociais. Uma nova fisionomia, menos idealizada e mais “decrépita”, não somente surge como é apresentada.
“A canção forma um todo muito coeso entre letra e música, algo que vem se tornando frequente em nossa parceria. Acho que uma constatação da decadência em que vivemos, e ao mesmo tempo não temer essa decadência, é um trunfo da canção”, comenta Henry.
Feitas tais apresentações, vamos então ao videoclipe.

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Woylle, Rodolfo, Ana Carolina, Victória Costa, Woltaire e Yasmin, a equipe da Fóton durante o FAB 2014. Foto: Divulgação

O videoclipe
A produção do videoclipe ficou sob a responsabilidade da Fóton Filmes, produtora que também já lançou “Eu quero cerveja”, de Félix Robatto e “Redenção”, da banda Álibi de Orfeu.
O vídeo foi gravado no início de junho de 2014, em Belém, e contou com a equipe formada por Ana Carolina Costa, Rodolfo Gomes Pereira, Victória Costa, Woylle Masaki, Woltaire Masaki e Yasmin Pires, além de outros colaboradores e equipe de apoio.
Para Henry, foi o primeiro clipe de fato de sua carreira. “Gravei um clipe para a TV Cultura do Pará alguns anos atrás, criado e dirigido pelo Roger Paes, e foi uma boa experiência; mas com a pré-produção e tudo que cercou o trabalho sobre o Oswald Canibal, sem dúvida foi o clipe mais produzido que fiz. O processo foi muito novo, as etapas, as gravações externas com muitos atores, as diversas fases, enfim, quando assisto ao clipe tenho muito clareza em relação ao profissionalismo da equipe, ao tamanho e importância do projeto”, destaca.
A direção ficou por conta de Rodolfo Gomes. “O Oswald foi minha primeira experiência dirigindo videoclipe e também o primeiro trabalho da Fóton Filmes como empresa, então todo o processo de elaboração e produção do vídeo foi um aprendizado, desde o esforço para conseguirmos o financiamento coletivo até a estreia no FAB”, destaca o diretor citando o Festival de Audiovisual de Belém (FAB), onde a obra foi lançada em 17 de setembro de 2014. Ouça e assista:

Ainda de acordo com Rodolfo, “a proposta do clipe desde o início era mostrar uma Belém pouco retratada, mais marginal, com personagens da beira inseridos em um contexto nosso. Além disso, eu sempre quis fazer algo na cidade velha a noite, aquela luz amarela dos postes antigos que (infelizmente) estão sendo substituídos confere um clima quase noir para o bairro. Soturno e ao mesmo tempo bem saturado. Bem Belém”, enfatizou.
No videoclipe, o que vemos é justamente este caráter marginal (da margem) de Belém, que obviamente não é restrita somente aos bairros em que foi filmado, nem a determinados grupos de pessoas e, muito menos, à noite paraense. Prostitutas, jovens que bebem e se drogam, um homem solitário que “afoga” (ou afaga?) o cansaço e suas angústias em algumas cervejas e cigarros. Todos estão presentes no clipe e ajudam, mais que a compor o cenário, “personificar” a canção.
Angústias. Talvez a canção e o videoclipe tenham como marca justamente este sentimento ou sensação de incapacidade de se mudar alguma realidade presente ou futura, que talvez nem exista. É – para mim – o mote da canção e do vídeo: o incômodo que deve servir para (tentar) modificar algo, ainda que seja difícil acreditar nisso.

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A Belém “marginal” tem como principal marca a paisagem urbana e seus problemas. Imagem: Reprodução/ videoclipe Oswald Canibal

Esteticamente, o clipe possui duas “composições”: ora um tom lilás, preto e rosa, ora dourado, degradé, preto e azulado, numa simbiose de cores que é reconhecida por quem passa ou transita pela noite da capital paraense. Tais cores, ao mesmo tempo que encantam por certa beleza, incomodam pelo “risco” de ficar mais vulnerável a algum ato violento. A direção de arte não somente merece destaque pelo apuro estético, mas também por compor e reforçar o clima angustiante da obra.
“A cidade velha noturna tinha o clima perfeito para o que queríamos falar no clipe, uma Belém com uma identidade própria, pouco explorada, marginal e suja. Apesar de ser bem “nosso”, o cenário também da um clima mais universal, o que não conseguiríamos se apelássemos para os pontos turísticos mais usados”, explica Rodolfo.
Neste sentido, é possível dar ênfase a um homem, um personagem noir, interpretado por Zhumar de Nazaré, que caminha pela noite, sem destino e nem aparentemente porquê. Silencioso, seu aparente incômodo e angústia dizem muito sobre o clipe e a música. O homem, com ou sem profissão, vaga, caminha, se arrasta pelas suas da cidade.

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Zhumar interpreta o principal personagem “noir” do clipe. Imagem: Reprodução/ videoclipe Oswald Canibal

Tal caminhar não é solitário e outros personagens, ao fazerem seus trajetos, por vezes cruzam-se com o dele. Dentre estes, a travesti interpretada por Caled Garcês carrega certa angústia e olhar desafiador, tal qual a canção. Nos momentos em que “canta” Oswald Canibal, pode surgir a indagação: seria tal personagem uma referência a própria cidade? Alguém que foi usada e hoje parece esquecida, abandonada, até mesmo por quem a vive e diz que a ama? Divagação ou não, fica a reflexão.

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Belém? Misteriosa, perdida, abandonada, a personagem de Caled talvez possa ser compreendida como um ícone da capital paraense. Imagem: Reprodução/ videoclipe Oswald Canibal

Além de tal personagem, merece destaque ainda a prostituta interpretada por Anne Beatriz, não somente pelas curvas e pela sensualidade que cintila na atriz, mas pelo ar cansado e enfadonho que carrega no clipe. Talvez o cansaço da personagem “represente” a resignação dos próprios moradores da cidade, que não acreditam mais em alguma mudança, seja da sua própria vida, seja da capital do estado.

Mas como vai aí no inferno, canibal?
Por aqui vamos bem, vamos mal
Até porque quem vê de perto não vê
mas a distância, o binóculo, cadê?

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Em meio à ruína, a beleza e o encanto. As personagens das prostitutas, com destaque para Anne,  ajudam a conceber tal diálogo no clipe. Imagem: Reprodução/ videoclipe Oswald Canibal

Ainda sobre a canção e seu vídeo, é possível por fim notar certa “fuga” (ou mesmo somente a não reprodução) de diversos clichês regionalistas ou mesmo geográficos da capital paraense. “Os estereótipos de Belém e da Amazônia são fortes, impactantes e difíceis de ser transpostos, mas existe uma longa tradição em Belém que não foi orientada apenas pelos lugares-comuns da cidade, estou falando, claro, da tradição do rock. De algum modo me sinto parte dessa tradição, que sem descuidar da vivência da cidade, conseguiu mostrar que existem muitos outros tipos de experiência em Belém, e que, sem precisar abandonar suas referências, produzem linguagens descoladas do clichê”, destaca Henry.
Para o músico, “Não deixa de ser curioso que uma canção orientada por uma concepção eletrônica, em função do arranjo do Fabio Cavalcante, seja gravada na parte mais antiga da cidade, que de algum modo é a que melhor espelha tudo que a canção diz”, complementa.
Nesta miríade de referências e personagens, somados ao belo e cuidadoso trabalho estético, a canção se “materializa” no vídeo. As observações cirúrgicas e poéticas de Henry Burnett e Paulo Vieira transmutam-se no clipe, fortalecendo o diálogo entre música e imagem, belezas e problemas da capital paraense, seus vícios e vicissitudes. Pelo bem e pelo mal, um livro, uma música, um videoclipe, uma cidade. Oswald Canibal.

Enderson Oliveira

Veja uma entrevista com Henry Burnett

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