O que fica do Intercom 2016 ou “conselhos” para (jovens) pesquisadores em Comunicação

Imagem: Divulgação
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De 2008 até este ano, tive mais de dez trabalhos publicados nos anais das reuniões da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, a Intercom. Por “chatice” (discernimento?), não gosto de nenhum deles. Ou melhor: só de alguns, em parte. “E olhe lá”. Na verdade nem sei o que penso sobre, não os leio depois de publicados. No máximo “consulto” vez ou outra; o texto tem vida própria e, após escrito, não se sabe o que pode ocorrer e prefiro não percorrê-los novamente.
Também não os leio porque até então considerava o Intercom um espaço menor de discussões, com temas repetitivos (pesquise, brevemente, por exemplo, “análise de capas de jornais policiais” ou filmes como “Clube da Luta” ou “Amélie Poulain” – a repetição parece ser agendada e é assustadora) e cujas análises e provocações (ora, academia é isto!) eram/são, em sua maioria, rasteiras ou inexistentes, não por incompetência dos autores, mas também pelas necessidades do mercado e pelas demandas quantitativas de instituições de financiamento e incentivo à pesquisa.
Admito, no entanto, que talvez esta visão tenha mudado nos últimos dias durante a edição nacional realizada na Universidade de São Paulo (USP) ou mesmo eu tenha “dado uma chance” para o Intercom de conhecê-lo de fato – ou “algo mudou”, minha hipótese preferida, pelo que ouvi de professores e outros membros do público. Em poucos Grupos de Pesquisa (GPs), alguns “Intercons Júnior” (IJs) e nenhuma mesa (bate-papos pops em que a preocupação central é fazer selfie com os debatedores não me interessam) pude perceber maior cobrança, poder de análise, provocações e respeito com a pesquisa em comunicação. Produtos, reconfigurações, temas instigantes e maior percepção da cidade como espaço de comunicação e interações foram pontos que mais me chamaram a atenção. E isto é ótimo, mostra crescimento e melhorias no evento.
Em uma leitura apressada e/ou mesmo geertziana (perdoe este autor pela referência atravessada, Geertz!), tais observações de alguns pontos talvez sirvam principalmente como reflexão para nós pesquisadores que temos certa trajetória e, especialmente, para jovens estudantes que começam a trilhar (n)este caminho da academia.
Levando tudo isto em conta, abaixo então listo e discuto alguns pontos que acredito merecerem destaque na “análise” do Intercom Nacional deste ano e que podem ser considerados “inspirações” (diagnósticos?) para as próximas edições regionais e nacionais, outros eventos e revistas. Na verdade, são observações e “sugestões” (conselhos?) para a pesquisa em Comunicação, em especial para quem vai começar na área.

01. Conheça (?) sua cidade
“Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perder numa floresta requer instrução”, escreveu Walter Benjamin em Tiergarten (Obras escolhidas II, 1985). Mais que isso: encontrar na própria cidade temas e possibilidades de estranhamento são difíceis, desafiadores e, obviamente, estimulantes.
Seja como local de trocas, seja de passagem, seja até mesmo como paisagem, objeto comunicacional de propagandas ou algo do tipo. Ela é importante e deve ser melhor observada, conhecida, “estranhada” e analisada, em especial Belém, uma simbiose apressada e periférica do que há de ruim nas “capitais do país”, notadamente Rio de Janeiro e São Paulo, além da peculiaridade de ser uma cidade amazônica e possuir desgovernos que a destruíram nos últimos anos, mas que ainda assim resiste com grande profusão cultural e que se renova constantemente – até mesmo porque pela falta de gestão, projetos e iniciativas nascem e morrem com uma velocidade impressionante. A tal “marca Amazônia” e Belém, com suas cores, sons, sabores, imagens e imaginários despertam muito interesse fora do Estado. Apostemos nisso, mas sem sermos ufanistas e não fiquemos totalmente presos a isto.

02. É hora de criar!
No país dos concursos públicos (muitos possuem como meta de vida a tal estabilidade financeira proporcionada pela aprovação em algum certame), sindicatos, greves anuais, falta de incentivo à iniciativa privada, visão equivocada de empresas (pense na novela ou filme que você acompanha ou já assistiu: o empresário era uma boa pessoa? Provavelmente não…), empreender é um desafio praticamente quixotesco. Ainda bem.
Atualmente é possível pensar e produzir aplicativos, sites, cursos, oficinas e criar startups que fujam de lugares comuns, que lidem com outros públicos e que não sirvam unicamente ao ego do seu criador, mas também como novas alternativas e melhorias à sociedade (Expocom sempre é uma oportunidade…). Não se faz revolução (no sentido real, não de livro de auto-ajuda ou frase de tatuagem clichê) de cima para baixo. Este é e sempre será um bom caminho, ainda que os passos no tal caminho das pedras sejam escorregadios.

03. Trocas são fundamentais
Meses atrás ouvi de uma pessoa que ministra aulas em uma instituição de ensino que temia convidar docentes de fora da faculdade para avaliar os trabalhos de seus orientandos. A frase, que pode ser interpretada como falta de confiança no próprio trabalho e na própria capacidade intelectual, aponta exatamente para o contrário do que é ciência: troca, inovação, recebimento de críticas que provoquem evoluções e melhorias e que, assim, se fuja do comodismo que muitas vezes domina a academia e mesmo a vida na urbe belenense. É preciso se expor, expor trabalhos, saber dialogar, comentar, estranhar-se, desafiar-se e receber críticas. Assim crescemos como pessoas e a produção acadêmica também se desenvolve. Todos ganham.

04. Não se deixe cair na tentação dos objetos…
Minha trajetória é repleta de análises e discussões sobre alguns produtos, principalmente (ou em sua totalidade) estéticos, culturais de Belém. Isto é bom? É. É estilo? Talvez. E daí? Pode ser algo bem melhor. Ora, não raramente observamos objetos que já conhecemos muito e em que o distanciamento e poder de análise ficam comprometidos por relações de afeto e mesmo de proximidade. Isto embaça a visão e torna o texto um panfleto ou release.
É necessário também fazer discussões maiores. A realidade está em movimento (frase clichê), Belém é uma cidade repleta de alternativas e sujeitos que (res)significam espaços e processos culturais e comunicacionais e que precisam de uma atenção maior. Observar isto é observar não somente a comunicação, mas os sujeitos que a produzem. Não esqueçamos que comunicar é humano. Somos nós mesmos que devemos, mais que notar e debater paradigmas, conceitos e categorias, nos observar e tentar compreender-nos e isso não se dá somente através da análise de alguns objetos, mas sim de panoramas mais amplos que podem ser (re)visitados.

05. Região não define “nível”
“Belém não tem nada”. A frase, insuportável, muitas vezes proferida pelos reclamões que de fato não fazem coisa alguma pela/na capital paraense, pode se aproximar da academia, com a impressão ou imaginação de que outras cidades/ instituições de ensino estão avançadas há anos-luz e que não é possível chegar em um nível próximo. Ledo engano, acredito.
Que há investimentos e toda uma rede de incentivos, pesquisas, bibliotecas, maiores possibilidades de viagens e demais estruturas em grandes centros é claro. No entanto, tomando por base as discussões do Intercom, afirmo convicto o óbvio: a diferença de região não define “níveis”. Vi apresentações de pessoas de grandes universidades da região Sudeste que leram a base do trabalho (o que é inaceitável, ainda que seja de estudantes de graduação), tornando a apresentação enfadonha e sem sentido; apresentações inseguras de mestres e doutores; estudantes e professores “fora do eixo Sul-Sudeste” que conseguiram segurar a plateia com apresentação envolvente e segura e outros diálogos que mostram que basta querer, se dedicar e ter um bom acompanhamento que se alcança não somente bons resultados, mas modificações no modo de se pensar e produzir comunicação e a certeza e tranquilidade de ter feito um bom trabalho.
É isso que irá diferenciar oportunistas de pessoas que se debruçam sobre temas e possibilidades, sejam os “sérios”, sejam temas mais “malucos” e nem por isso menos importantes. É isso que fará nossa pesquisa (em comunicação) sair de lugares comuns como análise do próprio empreendimento só pela proximidade e pressa, de páginas de jornais policiais e outros clichês. É isso que poderá fortalecer outras iniciativas, trabalhos e toda uma rede que permita, em especial na Amazônia e em Belém, a comunicação ter grandes pesquisadores e exemplos. Sonhemos forte. Pensemos grande!

P.S.: Em 2017 o Intercom Norte será realizado em Manaus-AM e o Nacional em Curitiba-PR. São as duas grandes chances de colocar estas ideias em prática e, ao longo dos processos, descobrir outras possibilidades também.

Enderson Oliveira

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