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Prepare-se! O ano das fake news chegou!

Apesar dos esforços do Facebook e outras grandes empresas de Comunicação, o balanço é contundente: em 2017, as chamadas fake news – ou simplesmente notícias falsas – aumentaram na rede de Mark Zuckerberg, a mesma que deve ter encaminhado você a este post e na qual você recebe diariamente inúmeros conteúdos – e pode lê-los ou não, decidir se são dignos de confiança ou estão longe disto.

De acordo com uma pesquisa do BuzzSumo, do BuzzFeed, as 50 principais notícias falsas de 2017 tiveram cerca de 3,5 milhões de compartilhamentos – imagine o número de prints destes conteúdos que foram “disparados” por aí… -, mais que o dobro do que ocorreu em 2016, quando os números alcançaram cerca de 1,5 milhão. Ou seja: não adiantaram muitos os esforços anunciados em 2016 para combatê-las. Sejam humorísticas e irônicas ou ainda tendenciosas e agressivas, tais textos (falsos, lembremos) lidos apressadamente se unem à nossa necessidade de acreditar que estamos sempre certos e nos fazem chegar ao “reino da pós-verdade”.

Robert Darnton, autor de “O Diabo na Água Benta” (Companhia das Letras, 2012), afirma que desde o século VI já há registro da veiculação de notícias falsas ou semi-falsas (veja mais na entrevista concedida à Folha de S. Paulo), em especial pelo também historiador Procópio de Cesareia em sua obra Anekdota. A prática ganhou maior visibilidade no século XVI, na Idade Média, tendo à frente o “jornalista” italiano Pietro Arentino. Atualmente, as fake news são potencializadas pela facilidade em sua produção e capacidade de “viralização” possibilitadas pela web. 

Tais constatações dão margem a duas reflexões. Preocupantes. A primeira diz respeito ao fato de 2018 ser ano de eleições (em especial presidencial e governamentais) – e você deve lembrar da ‘guerra’ vivida em 2014, que parece ter dividido de vez o país.

Com o acirramento de pseudo ideologias partidárias e, principalmente, pelo prazer egocêntrico de ver seu candidato e/ou amigo (ou aquele “conhecido-que-se-ganhar-vai-arrumar-emprego-para-alguém”) vencedor sob de um rival (note que é totalmente o oposto do que um dia propôs Aristóteles sobre o conceito de Política, que prevê a organização das pessoas em busca do bem comum e alcance de metas coletivas…), o número de notícias falsas, inevitavelmente, irá crescer, potencializado pelos objetivos “de campanha” – não à toa as terminologias bélicas são facilmente empregadas… – como também pela maior facilidade de acesso e criação de conteúdos e as plataformas para veiculá-los; notadamente blogs, perfis em redes sociais e sites.

A disputa nas discussões certamente provavelmente passará longe de ideias e propostas. Terão destaque informações (verídicas?) sobre a vida pregressa dos candidatos, frases atribuídas a eles, fotos, montagens (em imagens, áudios e vídeos) com conteúdos “bombásticos’ que poderão retirar ou garantir votos. Previsão? Aposta? Não. Constatação óbvia de qualquer pessoa mais atenta que acompanhou a disputa de 2014 e passeia pelas redes sociais diariamente.

A imagem, de autoria desconhecida, diz muito sobre discussões e preferências sobre informações e compartilhamentos de links pelas redes sociais. Imagem: Reprodução

 

Em meio a corações acelerados e dedos mais ágeis ainda (relembre de suas reações na última “briga” que você teve na web com alguém…), indiretas e diretas serão disparadas. A esmo. Qualquer pessoa poderá ser atingida (no pior sentido possível) e em poucos clicks e quase nenhuma atenção, sofrer os impactos e/ou reverberar tais conteúdos.
Panorama angustiante? Sim, mas não para por aí. Aqui chegamos ao segundo ponto que trago para discussão.

Observemos, caro leitor, algo que talvez seja um caminho sem volta e também preocupante; olhemos o “estado do jornalismo” atual, em especial o chamado Webjornalismo, digital, on line ou algum termo parecido. Na mesma pesquisa do BuzzSumo, concluiu-se o que quem está nas redações de portais de notícias ou possui professores atentos ao mercado e não ufanistas e idealistas “desavisados” já sabem: bobagens vendem, infelizmente. E vendem muito. Provas disso são as 10 principais fake news compartilhadas no Facebook e em portais de notícias:

Algumas das matérias mais acessadas foram “Babá é hospitalizada após inserir bebê na vagina”; “FBI apreende mais de 3 mil pênis em casa de funcionário de necrotério”; “Chester Bennington (vocalista do Linkin Park que se suicidou) foi assassinado”; “Funcionário de necrotério é cremado por engano enquanto tirava cochilo”; “Idosa é acusada de treinar 65 gatos para roubar vizinhos” e “Casal é hospitalizado após homem prender cabeça na vagina da esposa”. Fontes: Pesquisa do BuzzSumo e reportagem Fake news no Facebook: veja quais foram as mais compartilhadas em 2017, da Gaúcha – Zero Hora-RS.

 

Como se vê, o leitor – talvez você mesmo! – gosta de histórias “malucas”, fofocas, inutilidades. E isto é questão planetária, não “privilégio” dos Estados Unidos. A vida do outro, neste reality show sem fim chamado mundo contemporâneo, é muito importante. A presença de stories em quatro das principais redes sociais do ocidente (Instagram, Facebook, Messenger e Whatsapp) estão aí para comprovar isto. Nos interessamos pela história dos outros assim como nos interessamos por boas piadas e curiosidades. Isso dá visualização, like, acesso. E os acessos  pagam o salário do webjornalista. Qualquer um. Sem acesso não há capital e sem capital… você sabe.

Este panorama possui certa lógica. Primeiramente, uma nova tática é adotada em todos os portais: a disponibilidade de uma área específica para notícias – reais ou não, isso nem importa mais (nestes casos, é claro!) – com tais conteúdos. A seguir, em uma rápida mirada (pode fazer o teste em qualquer grande portal de notícias e diversidades aí), é importante notarmos que eles giram em torno de bizarrices, sexo, violência e morte. Se estes eixos se unirem, melhor ainda. Mais likes. Se se formarem tríades ou pares, o sucesso é garantido também. Mesmo que sigam individuais, já servem para garantir o lucro das empresas e os pratos de comida dos produtores e reprodutores das mesmas, isto é, dos jornalistas.

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Assim, vemos ainda uma mudança preocupante e não declarada: a falta de necessidade ou mesmo descuido com a apuração, base da atividade jornalística, o que pode resultar em publicações de erratas, pedidos de desculpas, editoriais, grandes erros, processos judiciais e até mesmo a destruição da imagem de alguém. Cabe a nós, profissionais da Comunicação, termos atenção a isto tudo e saber lidar com possíveis (prováveis?) problemas e acusações infundadas ou não. 

Ok, mas e o público? Cada vez mais prossumidor, sabemos que ele desabafa, critica e mesmo despeja seu ódio contra situações, grupos ou mesmo portais sem a menor cerimônia. A catarse coletiva “dos comentários” e “dos que vieram só ver os comentários” tem sua responsabilidade na manutenção do ciclo das fake news, assim como a desculpa de que “na correria” diária, a metonímia “parte pelo todo” seja sintetizada pela leitura das manchetes.

 

Nas últimas semanas de 2017, a principal notícia falsa, que causou revolta (e críticas com forte cunho homofóbico) em milhares de desatentos pelo país foi a de um inexistente apoio da Lei Rouanet a Pablo Vittar. Imagem: Reprodução

 

São elas, tendenciosas ou não, claras ou não, que muitas vezes dizem o todo a ser buscado e, portanto, as únicas linhas lidas. São elas que dão a verdade (e a pós-verdade, como veremos à seguir) para o leitor respirar aliviado e acalmar as palpitações cardíacas em uma discussão. Assim, neste panorama complexo, talvez seja o público o principal elo a fortalecer esta cadeia. Errado? A resposta é sua.

Certo é que o internauta cada vez mais parece estar interessado no aspecto lúdico e imaginativo, o mesmo que possibilita a muitas pessoas imaginarem algumas histórias e publicá-las. Assim, a tendência, como disse antes, é haver o aumento da produção de histórias tendenciosas, errôneas, falsas. E que, de preferência, esses conteúdos nos agradem e sejam convenientes, seja na tomada de posição sobre algo, explicação ou crença em um período em que acreditar em algo é cada vez mais difícil. O sucesso imediato de youtubers, “humoristas” de stand up, digital influencers, entre outros ícones contemporâneos, mostram isso. Quanto mais pacotes chegarem e não precisarmos retirar cuidadosamente os laços que os envolvem, melhor.

Indo de encontro a isto, não adianta olharmos de nossa posição – possivelmente “privilegiada” (odeio este termo, mas é o correto para esta situação) – e acreditarmos que algum conselho rasteiro como “é preciso ter atenção”, “deve-se reconhecer notícia falsa”, entre outros, irão resolver algo. É preciso reconhecer que, dentre tantos pós contemporâneos, o da pós-verdade seja o mais atual e duradouro.

Potencializada pelas notícias falsas, a pós-verdade fala bem mais da utilização e mesmo apropriação de um conteúdo (falso ou equivocado) que necessariamente da notícia “falsa” em si. Em um mundo repleto de polêmicas e aumento do número de discussões e atritos, em especial pela web, erros e mesmo criações por má fé seguem os mesmos rumos. Seu uso pela população é que é modificado.

Leia também: A verdade no “pós-tudo”: pós-verdade e comunicação na contemporaneidade

É justamente neste contexto – potencializado pela Web 2.0 e pela velocidade na troca de informações pelas redes sociais – , que o conteúdo passa a não existir mais em si mesmo, mas sim no momento seguinte; após. Além disso, a época da busca do ideal (necessário, é claro) e da preocupação com a veracidade do conteúdo, “passou”. Na pós-verdade, você tem a sua própria, ainda que nem acredite de fato nela nem consiga convencer outras pessoas de seu caráter “científico” ou mesmo real.

E DAQUI PRA FRENTE?

Ainda que hajam propostas de lei para coibir a criação e compartilhamento de tais conteúdos e que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esteja atento ao fenômeno e já criando estratégias para coibi-las de algum modo nas Eleições (leia mais em Fake news e controle na internet são desafios para as eleições de 2018, da Agência Brasil), é difícil que um maior controle de fato deste contexto. O que cabe a nós é usar algumas alternativas para tentar se proteger de cair nas armadilhas das notícias falsas. Vejam algumas:

1. URL modificadas ou sites com ícones e nomes muito parecidos: na pressa, muitas vezes olhamos os links e, pela similaridade ao que estamos acostumados, atribuímos confiança ao veículo, que foi feito para parecer um “real”. Exemplos: “G1” virar “GI”; “folha.uol.com” se tornar “folhadespaulo.com.br”. 

2. Atenção ao título! Não há, em geral, em nenhum portal, títulos grandes, com mais de 100 caracteres. Quando um título for “explicativo” demais, desconfie (vide a manchete falsa sobre o apoio a Pablo Vittar). Além disso, fique atento à fonte (letra) utilizada. Se for diferente da do restante do site ou mesmo um print em que ela não seja tão clara, desconfie.

3. Grandes portais são importantes: Se a notícia chamar sua atenção por ser muito incomum, violenta ou mesmo exagerada, pesquise a mesma em grandes portais de notícias (basta ‘jogar’ no Google algumas palavras-chave e o nome da veículo). Se foi notícia em algum local, deve ser neles também. Apesar dos pesares, quanto mais fontes para “filtrar” uma informação, melhor.

4. Erros demais: Errar no webjornalismo não é algo raro nem tão condenável, sejamos honestos. A pressa e diversas situações vividas em uma redação explicam (justificam?) isto facilmente. No entanto, quando “errinhos de digitação” passam a ser constantes ou mesmo são em sequência, temos um problema e, muito provavelmente, alguém por trás sem a devida preparação querendo apresentar uma informação falsa.

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5. Pesquise no Twitter: sim, apesar de ser o reino da zueira ou mesmo uma “terra sem ninguém”, lá você pode encontrar mais facilmente outras fontes sobre determinado conteúdo e mesmo alguém pode informar logo se aquilo procede ou não. Basta ir na área de busca e pesquisar por algumas das palavras-chave de uma matéria.

6. Prints são perigosos! Tidos como verdadeiros por “capturarem a tela” de uma conversa ou site, os registros podem ser facilmente adaptados ou forjados. Com isso, facilmente podem ser veiculados sem, a priori, a menor confirmação de veracidade ou não. Quando uma possível notícia for compartilhada só por prints, desconfie logo e pesquise seu título em algum buscador. Aí sim você poderá saber se ela procede ou não, observando a fonte e a abordagem tomada.

7. Consulte sites especializados em esclarecer notícias falsas: destaco o E-farsas e o Boatos.org, que, além de servirem como entretenimento e para o ego (você pode ser o “sabichão” da turma de amigos, que sabe o que é “verdade ou não”) pelo conhecimento que proporcionam, colaboram também para evitar que notícias (absurdas, em geral, mas também algumas “curiosas” e que incitam grande repercussão entre os internautas) sejam veiculadas e mesmo ganhem status de conteúdo “real”.

O QUE FICA?

Deixando então estas provocações a você, caro leitor, que chegou até este momento do texto, o convido também a ter atenção com os fenômenos aqui citados: seja o social-político ou o ligado à comunicação, em especial ao Jornalismo.

Em um período do ano em que geral se reflete sobre a vida e objetivos a serem buscados e alcançados, talvez seja hora também de nos prepararmos nas trincheiras para evitar as reações ao bombardeio de fake news que virão e passarão exatamente por este computador, tablet ou smartphone pelo qual você lê este texto agora.

Preocupa? Sim, mas é preciso seguir, em especial iluminados, nem que seja por esclarecimentos, pelas luzes das telas dos computadores ou da explosão dos fogos de artifício que anunciaram a chegada de 2018 e, principalmente – em tom apocalíptico ou não – a chegada do ano das fake news.

Enderson Oliveira

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