Uma canção (inusitada), seis impressões: o Intercom Norte 2017 e a pesquisa na/ da Amazônia

Tal como esta imagem, talvez seja hora de “fugir” (ignorar?) imagens pré-concebidas e imaginadas sobre a Amazônia e criar pequenos pontos de “resistência”. Photo credit: Ana_Cotta via VisualHunt.com / CC BY

Em Ribanceira (1978), Dalcídio Jurandir já afirmara que “Chegar de viagem não é desembarcar por inteiro. Que é que de nós fica a bordo, não sabemos”. Certamente a afirmação pode ser associada, em maior ou menor escala, a todas as viagens possíveis.

Semanas atrás, durante – finalmente – minha “ida” ao Norte (refiro-me aqui a conhecer outra capital da Amazônia, que não Belém), uma música acompanhou-me mentalmente – ora, alguém entende de fato tais processos? – em alguns momentos dos trajetos e, acredito, pode ser associada facilmente às impressões que trago da cidade e do evento. Mais que isso: sobre modos de experiência e o atual estado da pesquisa na Amazônia.

Refiro-me então à canção Vai sacudir, vai abalar, do grupo noventista Cheiro de Amor (não, você não leu errado!), “ressuscitada” em versão da Banda Uó anos atrás. Tal como o Norte, talvez esquecido/ ignorado (por nós mesmos, nortistas), a canção – exceto a parte mais “amorosa”, que não apresento aqui – também é passível de melhor observação e mesmo análise, ainda que isto pareça inusitado e curioso. Região, música, experiências e compreensões se reúnem então em uma só substância, que não precisa ser coerente nem linear, como a vida e como os trechos que analiso da canção. Comecemos.

Vai sacudir, vai abalar

Confesso que estava ansioso para conhecer Manaus e pela participação nesta edição do Intercom. Inúmeros fatores, de ordens diversas, explicam isso, mas não vou me deter a eles, e sim nas impressões após os dias na capital amazonense.

Como é bom ver pessoas que sacudiram a poeira do mausoléu de pesquisas repetitivas em Comunicação e atualmente estão mais preocupadas com pesquisas inovadoras ou – no mínimo – novas discussões e revisões. Que bom constatar que estão sendo deixadas de lado a repetição insípida de análises de capas, embalagens ou mesmo discussão rasteira sobre alguma obra fílmica ou ainda atenção à cobertura jornalística sobre determinado tema (que se encerram em si mesmos). Também estão sendo deixadas de lado a análise musical ou de outra linguagem artística, em geral guiada pelo posicionamento “político” (não tal qual o conceito aristotélico, mas sim partidário, à esquerda (maioria em Comunicação) ou à direita (em geral visto como o reino dos “opressores”  (sic) etc.).

E a Amazônia (re)criada pelo homem? Foto minha, na Cachoeira das Onças, em Presidente Figueiredo-AM

 

 

Isso ainda existe? Sim, claro. Até mesmo absurdos como analisar produções na Web sem levar em conta uma série de particularidades… da Web – o que em alguns casos me deixou assustado e muito preocupado, reconhecendo talvez a presença de algum espectro frankfurtiano em plena pós-modernidade.

No entanto, em geral, saí contente (aliviado?) por ver mais discussões sobre processos, muitas vezes analisando determinados casos sem se deter somente neles. Isso denota amadurecimento e detona velhos cânones, que obviamente ainda são observados, como a insistência em análises “inocentes e puras” como se o Jornalismo e a Publicidade assim o fossem.

O regionalismo que aprisiona em muitas vezes também foi deixado um pouco de lado. Esquecer ou apagar a história? Claro que não. O verde-bandeira amazônico, suas populações mais tradicionais – ora, ora, o que é tradição?! – não precisam ser sempre citados e nem incensados. A história e a mídia já fizeram e ainda fazem isso. Manter-se neste ciclo vicioso é nocivo para as discussões e a produção acadêmica.

Quando meu amor passar

“Amor, então, também acaba?”, pergunta Paulo Leminski em um de seus poemas. Se acaba ou não, depende da concepção e conceito de (amor de) cada um. Na pesquisa, no entanto, há uma certeza: é necessário afastá-lo, distanciar-se de alguns objetos e “amores” (instituições, pesquisadores, amigos, objetos, temas etc.) e/ou no mínimo vê-los em outras perspectiva. De outro modo.

Veja também O que fica do Intercom 2016 ou “conselhos” para (jovens) pesquisadores em Comunicação

É bom deixá-lo passar (em ambos os sentidos), estranhá-los e, assim, de fato (re)conhecê-los, evitando fazer análises repetitivas e ufanistas motivadas somente pela proximidade ou mesmo necessidade de produção em massa para currículos lattes ou para agradar este ou aquele grupo, pesquisador, instituição etc.

Explode, coração, é muita emoção no ar

Talvez a maior lição destes dias resvale no óbvio e (re)conhecido: é necessário querer vencer, ter gana. Os exemplos de meus orientandos e de outros alunos e pesquisadores que conheci, de Belém e outros Estados, é estimulante, encantador.

Pessoas que viajaram por quase um dia todo, de ônibus e também avião (por vezes ambos no mesmo trajeto) para aproveitar Manaus, é claro, mas concorrer a algum prêmio no Expocom e também participar de discussões mais amplas sobre seus temas e questões transversais em Divisões Temáticas e Intercom Jr. Ou seja: que se esforçaram ao máximo para alcançar objetivos que para alguns podem parecer pequenos, mas significam grandes vitórias iniciais.

Ver no olhar de cada um certo encanto e até mesmo emoção (sim!) não pelo resultado, mas pelo caminho percorrido (Konstantinos Kaváfis já decretara: “quando fores a Ítaca, que teu caminho seja longo…”), a experiência adquirida, a vontade de ir além, ainda que em tantos momentos não existam rastros de apoios e incentivos (de todas as ordens), foi o que fez a viagem toda valer a pena.

Essa explosão de raça e gana certamente irá colaborar para a inovação das pesquisas bem como para uma proximidade dos futuros profissionais com a pesquisa e, quiçá, a continuidade e/ou desenvolvimento de uma trajetória na academia. A semente foi plantada. É hora de regá-la.

Solte o corpo, ficar parado é bobeira

É necessário conhecer o Norte. Ainda que nosso mapa seja um rosto com a fronte direcionada – em posição subserviente, talvez – à Europa e de costas à América Latina e, mais especificamente o do Pará, de costas aos nosso irmãos amazônicos, conhecer presencialmente e ouvir os depoimentos de pessoas que moram nos outros Estados da região – por sinal, faça um teste rápido, você sabe todos os nomes de cor? – é gratificante e estimulante.

É hora de não ficar parado e deixar de lado a visão imperialista (sim!) de Manaus e Belém e apostar em ao menos conhecer outras cidades. Ir ao Oeste não com visão de exploradores e dizimadores tais como os que nos colonizaram, mas de quem quer aprender mais e reconhece isto – talvez nossa empáfia não permita em um primeiro momento, mas a “recompensa” é maior.

Em uma analogia amazônica (sic), talvez este seja, enfim, o verdadeiro El Dorado, um tesouro contemporânea caro e raro: o (re)conhecimento (da importância) do outro. O contato com as semelhanças que nos unem e as diferenças que nos singularizam.

Não há quem resista a esta sinfonia

Não sei se você já pensou nisto ou mesmo se deu atenção, mas se você que está lendo isto até agora morar na Amazônia… Você mora na Amazônia. Talvez seja a região do mundo mais repleta de imagens e imaginários sobre sua criação, constituição e contemporaneidade. Região vital para os ecologistas, estratégica para governos, fruto de interesse para turistas, ponto de partida para publicitários, fonte constante de pautas para jornalistas, acervo inesgotável de temáticas para pesquisadores, entre tantas outras denotações que poderiam ser citadas aqui.

Diante de muita coisa observada e discutida em Manaus semanas atrás,decidi criar um grupo – pelo facebook e lista de e-mails – com um objetivo claro: aproximar pesquisadores, em especial de Comunicação, que pensam, discutem e produzem conteúdo sobre a Amazônia contemporânea. Tal aproximação só virá com a troca. De referências, pesquisas, autores, prazos e convocatórias etc. A integração – ainda que virtual em algo pequeno e inicial como esta iniciativa, por ora – certamente nos aproximará e fará com que nos (re)conheçamos e, juntos, possamos compreender um pouco mais sobre as discussões acerca da Amazônia e suas interfaces. Para participar do grupo, basta clicar aqui.

Em meio a tudo isso, muitas vezes a resistência a tamanha importância é nossa – certamente você preenche rapidamente mais de uma mão com amigos e conhecidos que, em um movimento diaspórico silencioso, abandonaram suas cidades e Estados em uma marcha a outras regiões, em especial ao Sudeste…

A sinfonia já atrai o mundo, falta nós a ouvirmos melhor e seguirmos tal qual flâneries (perdoai este pobre amazônida, Benjamin e Baudelaire) não somente por matas e trilhas, mas sim caminhos sinuosos, urbanos, contemporâneos.

Tambores e repiques a soar na batida desse dia de festa

Um evento é, em última (primeira?) instância, uma grande festa. E na festa, como se sabe, diferenças muitas vezes são deixadas de lado, outras enfatizadas. O bem comum, ainda que particular, norteia as práticas, em geral conjuntas.

Em um evento acadêmico isto não é diferente. É o momento de reunir as diferenças, atritá-las e, assim, provocar fagulhas e centelhas que iluminam e podem conduzir a algo maior e melhor. E isto, na provavelmente principal cidade da região, foi fundamental para nos (re)conhecermos e (re)unirmos.

Nestes dias de “clima de festa”, os aprendizados ficaram, as lembranças ainda são muitas, saudades ou incômodos talvez ainda sejam latentes. Seja como for, não somos mais os mesmos. A trajetória, no entanto, não para por aqui.

Vem aí inúmeros outros eventos e possibilidades de publicações, como revistas, e-books, livros etc. Vem aí a edição nacional do Intercom, em Curitiba. O Intercom Regional na fria (você sabia?) Vilhena, Rondônia. Vem aí, portanto, uma série de possibilidades de novos (re)encontros. Com outros amazônidas. Com nós mesmos. E tudo isso vai fazer o quê? Vai sacudir, vai abalar.

Enderson Oliveira

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