Fotógrafa paraense de apenas 18 anos é destaque em exposição na Europa

A produtora audiovisual paraense Débora Mcdowell. Foto: Vitória Leona

Da mistura equilibrada e atenciosa de cores, curvas e expressões de diversas mulheres, em especial de Belém do Pará, na Amazônia, surgem imagens que retratam, além do corpo feminino, a força e vigor do gênero da maioria da população mundial. As imagens, feitas por uma jovem de apenas 18 anos, de sorriso tímido e click preciso, alcançaram tamanho destaque que aterrissaram, após somente uma escala regional, à Europa.

Sim, três fotografias da jovem fotógrafa paraense Vitória Leona, que já teve outras obras publicadas na revista digital alemã Grunge’n’Art, participaram no início de fevereiro de uma exposição na galeria Copeland Park & Bussey Building, em Londres, capital da Inglaterra, e devem ser expostas novamente entre maio e junho em Paris, na França. A paraense foi a única representante brasileira na exposição, que contou ainda com obras de outros 16 artistas, sendo somente quatro fotógrafos no total.

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“Eu recebi um e-mail do Jesse Gassongo-Alexander, diretor e escritor do projeto, no final do ano passado. Como nunca tinha recebido um e-mail em outro idioma, vindo de um remetente estranho, quase não abro por achar que era spam. Porém, vi que o conteúdo era sobre fotografia e era um convite para conhecer mais e participar do projeto. Ele me explicou como funcionava e sobre as duas edições passadas, que aconteceram em Londres e Copenhagen, e pediu para que eu selecionasse algumas imagens do meu acervo em resposta ao curta-metragem Bloom”, explicou a jovem.

Ingrid Velasco e Alexandra Dutra Foto: Vitória Leona

As fotografias escolhidas são de Ingrid Velasco, Alexandra Dutra e da produtora audiovisual Débora Mcdowell. Nas imagens, as três mulheres são apresentadas sem grande produção e edição; o destaque é para suas expressões e o cotidiano em que estão inseridas. Corpo, dia-a-dia e simplicidade se unem em uma caleidoscópio que dá margem para acentuar as discussões sobre o poder das mulheres, representação, arte e mídia, destacados por Vitoria que, com um trabalho focado no feminino, busca desconstruir a sexualização do nu.

A produtora audiovisual paraense Débora Mcdowell. Foto: Vitória Leona

Os planos da jovem, no entanto, não param por aí. “Eu tenho vários projetos que ainda não tirei do papel, dentre eles alguns voltados para fotografia documental. Quase todos buscando uma maior interação com a cidade e com a nossa cultura paraense, uma forma de juntar as referências que trago do mundo e o que temos aqui”, antecipa Vitória, que afirma ainda que “eu sempre pensei que, apesar de gostar de tantas cidades ao redor do mundo e querer conhecer muitas outras, eu não poderia nascer em um lugar melhor. Eu sou apaixonada pela cultura paraense. Nós temos cores, cheiros, sons, paisagens, fisionomias e costumes muito ricos. É uma diversidade sem tamanho que carrega bastante força. Poder retratar isso é registrar algo único”, enfatiza.

Trajetória curta e promissora

Que Belém possui uma tradição de grandes fotógrafos, isso se sabe, mas na obra de Vitoria isto parece ser potencializado. Como o flash de um click, a carreira da jovem passou a ter maior projeção rapidamente. Antes da exposição internacional, a fotógrafa tinha participado somente de outra, em 2016, em Belém: “Em novembro do ano passado fiz minha primeira exposição, com uma visão geral das minhas fotos focadas no nu feminino. Fui convidada pela cantora Liège para expor no evento que ela idealizou, o ‘Liège Sem Crivo’”, explica.

A escolha de mulheres obviamente não é aleatória e possui, mais que certo cunho político, marcas da estética de quem possui como referências o trabalho de Renato Galvão, Mariana Caldas, a canadense Petra Collins e, principalmente, o carioca Fernando Schlaepfer e o paraense Luiz Braga.

A exposição deve passar ainda por Paris este ano. Foto: Jesse Gassongo-Alexander

Neste processo, ganha destaque mais que o corpo feminino como “paisagem”, suas expressões que buscam fugir a clichês e se aproximam de uma realidade mais urbana, contemporânea e “empoderada”. “Quando comecei a fotografar eu fazia bastante fotografia documental. Tenho um conjunto de fotos do cotidiano belenense, mas hoje em dia eu não faço tanto, apesar de achar maravilhoso, pois acabei criando um bloqueio em relação a fotografar desconhecidos, me apropriar da imagem deles sem buscar conhecê-los mais a fundo. Talvez a desconstrução disso resulte em um projeto”, afirma.

Através da obra de Vitória é possível, então, se “espelhar” e mesmo se reconhecer, mostrando o poder da arte e sua relação com o cotidiano pós-moderno da Amazônia, sem deixar de lado a própria identidade. “É óbvio que eu foco na parte de retratos, através deles eu tento passar bastante de mim e do que eu acredito, mas principalmente sobre a pessoa retratada e o que ela pode vir a representar, às vezes oferecendo um olhar mais gentil sobre si mesma. A maioria das meninas que fotografo nunca fizeram isso antes, nunca fizeram um ensaio nu, mas confiam em mim para isso, e algumas estão ali superando inseguranças, parte delas com o próprio corpo. Fico muito feliz quando essas mulheres (convidadas ou clientes) relatam que puderam ver a si mesmas de outra perspectiva jamais imaginada, se sentiram bem, mais bonitas”, finaliza.

Bloom, o filme

“Bloom”, curta-metragem inglês que é ponto de partida para exposição, foi escrito e dirigido por Jesse Gassongo-Alexander e apresenta a história de quatro garotas. Periodicamente acontecem eventos que, além da exibição do filme, também contam com a exposição do trabalho de jovens artistas mulheres do mundo inteiro. Veja o teaser:

 

Conheça

Saiba mais sobre as obras de Vitória no Instagram (@vitorialeonaph) e em seu site.

Texto originalmente publicado por mim no jornal Diário do Pará

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