ENTREVISTA | Henry Burnett

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Foto: Marina Cavalcante

Henry Burnett nasceu em Belém do Pará em 1971. Pós-doutor em Filosofia, viveu na capital paraense até os 27 anos. Morou em Campinas, Rio de Janeiro, São Paulo e atualmente reside em São José dos Campos/SP, onde é professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Henry também é músico e ao longo de mais de 20 anos de trabalho como compositor desenvolveu uma identidade musical que resulta tanto da vivência de sua cidade natal quanto das informações da tradição do cancioneiro popular brasileiro.
Em janeiro, fiz uma pequena entrevista com Burnett por conta das “comemorações”(?) sobre os 399 anos de Belém. Apenas cinco perguntas, mas que servem de provocações e reflexões a partir de suas impressões. Abaixo reproduzo a entrevista completa. Confira:

Enderson Oliveira – Viveste em Belém por quanto tempo? Como observas a cidade nas vezes que voltas a Belém?
hen2Henry Burnett – Saí de Belém pela 1ª vez com 27 anos, antes disso nunca tinha sequer saído do Estado. De alguma forma, e isso não é uma frase de efeito, eu sinto que ainda vivo em Belém, ou pelo menos uma parte de mim nunca saiu, nunca conseguiu desenraizar completamente. Belém sofre dos males urbanos, mas numa escala avançada, como se as coisas tivessem andado rápido demais. São tantos danos à civilidade, ao meio, ao espaço público, que o que ainda sobrevive como encantamento parece perder força. Mas isso é um problema de todas as cidades históricas do Brasil, não é uma questão apenas de Belém.
Enderson Oliveira – O que mais te chama atenção na cidade, seja no aspecto positivo e negativo?
Henry Burnett – Como eu disse, o que é destrutivo chama mais atenção. Veja como isso ocorre no espaço político: o mesmo governo é capaz de promover uma ação milionária de promoção cultural, cujo foco principal é mais sua autopromoção política do que a da arte em questão, e ao mesmo tempo ameaça destruir órgãos de importância inequívoca para a promoção e o fomento da produção artística. Há um descompasso nos dois atos, esse descompasso é exatamente a ignorância sobre a cultura. O espaço urbano, como sabemos, permanece sendo o espaço das grandes obras, como um espelho do aspecto fetichizado e impactante da música, são duas faces da mesma compreensão da cultura. Enquanto isso o IAP é considerado desnecessário. Dentro do modelo em voga, é mesmo.
Enderson Oliveira – Em tuas músicas, uma Belém melancólica, violenta e mesmo caótica é “apresentada”. Belém deve ser observada mais deste modo para que algo seja melhorado? O que mais te incomoda na representação da cidade (como os clichês turísticos, por exemplo)?
hen1Henry Burnett – Eu nunca fiz a autocrítica da minha música. Acho que o fato de não haver crítica e análise do que faço não significa que eu deva autopromover meu trabalho de modo autorreferente. Os temas que você identifica como expressão do que compus não foram pensados como uma forma de combater esses clichês mas, olhando em retrospecto, noto que mesmo meu 1º disco, do qual não gosto nem um pouco, se chamava Linhas Urbanas, ou seja, era uma forma de apresentar um elemento muito presente na minha vivência da cidade: a vida metropolitana. Cresci de costas para o rio, que nunca foi fonte de expressão para mim. Se a melancolia e a violência são temas recorrentes, é porque eles estavam diante de mim, mesmo quando eu não sofria deles. Mas eu incluiria nesse leque o sexo como uma das grandes representações da vida belenense que estão nas minhas canções. Não tenho um incômodo com as representações de identidade. Acho que basta olhar para as fotos do Luiz Braga para saber que os clichês, dependendo do ângulo, revelam mais dor que beleza.
Enderson Oliveira – Qual(is) canção(ões) tuas consideras que mais “representa(m)” a cidade?
Henry Burnett – As clichês! Chuva op. 14:30 em primeiro lugar. Mas muitas outras tem Belém como referência: Noite Úmida,Dezembro, Interior (letra: Edson Coelho), O curso do rio (parceria com o Renato Torres) e, mais recentemente, uma das minhas preferidas, Belém de Passagem (letra: Paulo Vieira).

Enderson Oliveira – Qual ao maior problema de Belém? E qual achas que é a maior necessidade?
Henry Burnett – O desamor pelos espaços de convívio, a destruição do patrimônio. A necessidade maior é simplesmente amar a cidade e cuidar dela como cuidamos da nossa casa, entendendo que a cidade deve ser uma continuidade amorosa de nossa intimidade.

Enderson Oliveira

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