Documentário Fisionomia Belém está disponível no Youtube

Quão estranha e sofrida pode ser (ou é) uma cidade castigada pelo calor e pela chuva quase diariamente? Quão esperançosa é uma cidade que é capital de um estado que desde o hino já sentencia: “teu destino é viver entre festas, do progresso, da paz e do amor”? Quão suja e abandonada é uma cidade com inúmeras “obras-sem-fim” e monturos de lixo, em que seus próprios habitantes e filhos não se intimidam e, em qualquer local e a qualquer momento, escarram grosso e raivosamente em dezenas de cusparadas destinadas ao solo citadino, amaldiçoando-o? Quão alegre e diversificada é uma cidade que na cultura, em que pese a gestão raquítica (pública e privada), possui uma produção rica, peculiar e instigante?

Tais situações peculiares, evidenciadas – e evidentes – na capital paraense e as relações com seus moradores, muitas vezes “inscritas” e/ou sugeridas na fisionomia da cidade são pontos centrais no documentário Fisionomia Belém, lançado no Festival de Audiovisual de Belém em 2015 e que agora está disponível no Youtube e com legendas em inglês. A direção do filme é assinada por Relivaldo Pinho, professor e doutor em Antropologia e Yasmin Pires, publicitária, graduada em Cinema e Audiovisual e mestranda em Filosofia.

O filme busca mostrar uma “outra Belém”: contemporânea, talvez pós-moderna, bem mais “real” e (re)conhecida por sua população, e não somente apresentada através do ufanismo e imediatismo turístico e midiático que, por vezes, a simbolizam. O documentário começou a ser produzido em 2014, durante as atividades do grupo de pesquisa “Comunicação, Antropologia e Filosofia”, coordenado por Pinho, e contou com a participação de membros das várias áreas do conhecimento.

Nas pesquisas, que resultaram ainda em um grande acervo de imagens disponibilizado no site do projeto, teve destaque a observação de ruas, avenidas, espaços, propagandas e linguagens artísticas que singularizam e comunicam tais processos, mas que, por vezes, parecem estar despercebidos ou (ainda?) ignorados por certa preferência em incensar a repetição de determinadas fórmulas e imagens.

Cerca de 200 pessoas compareceram ao Cinema Olympia no lançamento do filme, em 2015. Foto: Ana Carolina Almeida Souza

 

O projeto partia da ideia central de que Belém do Pará, em seus prédios, lojas, vitrines, avenidas, muitas vezes possui as marcas de um passado que, entrelaçado com o presente, revela uma realidade submersa, ou próxima demais e instigante. Tal choque – ou diálogo – resulta, e ao mesmo tempo é resultado, de novas reconfigurações do espaço urbano na contemporaneidade, que obviamente também ocorrem na Amazônia, ainda que representações imagéticas e culturais insistam em associações a uma supremacia da paisagem verde, a um folclore inigualável e produções culturais tomadas como exóticas pelo resto do país. Contudo, o que se nota vai bem além: uma realidade em movimento, fluida, problemática e complexa, que incita e, ao mesmo tempo, comunica transformações na fisionomia da cidade.

Tais mudanças, ou mesmo sua miscelânea, são potencializadas em Belém, já que “a Amazônia vive vários tempos”, seja o mítico, o moderno, o pós-moderno, como destacou o professor Ernani Chaves. Uma cidade heterotópica emerge então, o que também está presente não somente nas produções arquitetônicas, institucionais e publicitárias, mas também nas artes.

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Deste modo, a chamada “metrópole da Amazônia” pode ser analisada e compreendida através de registros materiais e imagéticos, como fotografias, sejam as mais corriqueiras (nem por isso menos prenhes de significados) ou artísticas, mas também outros produtos estéticos, como filmes, pinturas, intervenções, livros, videoclipes e canções.

“As imagens do projeto, e o próprio filme, procuram representar uma contemporaneidade ignorada por um cotidiano que impossibilita uma reorientação do olhar, incapaz de perceber a cidade sob as várias existências imagéticas e temporais, sobre um espaço que se modifica, que abandona certas vivências e incorpora outras, na qual ruínas e novos edifícios coexistem, uma metrópole veloz, mas, que ainda caminha, repleta de imagens que cintilam e de rostos anônimos”, explica Relivaldo Pinho.

Imagem: Reprodução

 

O  FILME

No documentário, além de imagens da cidade, tem relevo as entrevistas com pessoas que comunicam de algum modo, percebem e interpretam as modificações pelas quais passa a cidade. Nesse sentido, sua produção integra cinco entrevistas: com Edyr Augusto, jornalista, radialista, redator publicitário, autor de peças de teatro e livros como Os Éguas (1998), Moscow (2001), Casa de caba (2004), Um sol para cada um (2008), Selva Concreta (2012) e Pssica (2015); Ernani Chaves, pós-doutor em Filosofia e professor na Universidade Federal do Pará; Fernando Segotwick, roteirista e diretor, produtor de filmes como Dias (2000) e Matinta (2012); Eder Oliveira, graduado em Educação Artística – Artes Plásticas pela Universidade Federal do Pará e “pintor por ofício” desde 2004; e Lázaro Magalhães, jornalista e músico, um dos fundadores da banda paraense Cravo Carbono.

Yasmin Pires afirma que “O documentário é importante para que haja uma quebra nessa construção amplamente difundida pela mídia sobre o que é Belém ou a Amazônia. Belém deve ser entendida como um espaço urbano cuja construção é permeada por experiências contemporâneas que transcendem o achatamento de uma realidade representada pelo dançar carimbó, ir ao Ver-o-Peso, tomar açaí etc.”, finaliza.

Assista:

OS DIRETORES

Relivaldo Pinho é doutor em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Federal do Pará (UFPA). É autor dos livros Antropologia e filosofia: experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia (ed.ufpa, 2015); Mito e modernidade na Trilogia amazônica, de João de Jesus Paes Loureiro (NAEA/UFPA, 2003); Amazônia, cidade e cinema em Um dia qualquer e Ver-o-Peso: ensaio (IAP, 2012), e organizador do livro Cinema na Amazônia: textos sobre exibição, produção e filmes (CNPq, 2004). É autor do capítulo Clifford Geertz (1926-2006), do livro Os antropólogos: clássicos das ciências sociais (Vozes; PUC-RIO, 2015).

Yasmin Pires é formada em Comunicação Social pela Universidade da Amazônia (UNAMA) e em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Hoje, é mestranda em Filosofia pela UFPA. Participou das produções dos videoclipes Eu Quero Cerveja, de Félix Robatto, Oswald Canibal, de Henry Burnett, e Redenção, da banda Álibi de Orfeu. A captação de imagens e edição do documentário ficou sob responsabilidade da Fóton Filmes.

FICHA TÉCNICA

Sinopse: A cidade contemporânea parece alargada em transformações cotidianas que se desviam da percepção, com traços que às vezes são descortinados apenas em suas representações. Fernando Segtowick, Éder Oliveira, Lázaro Magalhães, Edyr Proença e Ernani Chaves são os mediadores para falar sobre uma única personagem: Belém do Pará. As mudanças, sociabilidades e representações na capital do estado do Pará, encravada no meio de uma Amazônia mítica e real.

Direção: Relivaldo Pinho e Yasmin Pires

Ideia Original/Entrevistas: Relivaldo Pinho

Roteirização: Yasmin Pires

Direção de Fotografia: Yasmin Pires

Câmera: Yasmin Pires, Camila Machado, Victória Costa, Ana Beatriz Oliveira, Robson Cardoso e Enderson Oliveira

Som Direto: Victória Costa e Wenderson Silva

Produção: Ângelo Cavalcante, Danilo Caetano, Priscila Bentes, Paulo Victor Dias, Thamires Veloso, Enderson Oliveira e Vanda Amin

Edição/Mixagem/Finalização: Victória Costa e Yasmin Pires

Entrevistados: Edyr Augusto, Ernani Chaves, Fernando Segtowick, Éder Augusto e Lázaro Magalhães

Decupagem das Entrevistas: Victória Costa, Enderson Oliveira, Priscila Bentes, Paulo Victor Dias e Thamires Veloso

Trilha: Rhapsody in Blue – George Gershwin; Maze – Snakecharm; Zouk House – Strobo; Andando no Chuvisco – Pio Lobato; Marx Marex – Cravo Carbono; Oswald Canibal – Henry Burnett; Respira – Madame Saatan e Equipe Super Vip – DJ Waldo Squash e Maderito

Assessoria de Comunicação: Enderson Oliveira​ ​

Realização: Grupo de Pesquisa Comunicação, Antropologia e Filosofia

Co-Produção: Fóton Filmes

Enderson Oliveira

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