A verdade no “pós-tudo”: pós-verdade e comunicação na contemporaneidade

30 de outubro de 1938. Orson Welles aterroriza parte dos Estados Unidos com a dramatização do livro (de ficção científica, notemos) A Guerra dos Mundos, do escritor inglês Herbert George Wells, em seu programa de rádio. No horário, Welles relatou a invasão dos marcianos à pequena cidade de Grover’s Mill, no estado de Nova Jersey, costa leste dos EUA.

Outubro de 2016. Quase oitenta anos depois, o Dicionário de Oxford definiu “pós-verdade” como a palavra do ano. Em uma época chamada pós-moderna, com referências até mesmo a pós-humano (pós-tudo ou pós-qualquer coisa, resumindo logo),  o termo teria sido citado pela primeira vez em 1992 pelo escritor Steve Tesich, na revista The Nation. Doze anos depois, foi encontrado no título do livro de Ralph Keyes chamado The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. Em setembro de 2016, voltou a ser citado no artigo “A arte da mentira”, da revista The Economist. Pronto, o termo entrava de vez para o rol dos “pós” que podem ser utilizados (principalmente por nós, acadêmicos) com muita elegância vocabular, mas sem muita clareza.

O que os casos tem a ver entre si? Na teoria (ou na prática), bem pouco, é verdade. No entanto, se observarmos atentamente, ambos mostram que a comunicação nem sempre – por mais que tal constatação seja constrangedora e/ou incomode – trabalhou com a verdade para impactar muitas pessoas;  seja na ausência de muitas fontes de informações como no pânico causado em 1938, seja no “bombardeio” e pulverização de conteúdos como no período contemporâneo. Ou seja: “mentiras”, informações tendenciosas mal explicadas ou ainda propagandas que vendem muito mais do que o produto tem a oferecer sempre foram – e são – “comuns”.

Nas redes sociais isto é cada vez mais potencializado. Sites – de humor ou não – veiculam notícias que nem sempre são de fato verdadeiras, podem ser inventadas ou ainda adaptadas para atender determinado interesse – seja bom ou não. Você mesmo, por pressa ou desatenção, já deve ter compartilhado algum conteúdo acreditando que era correto e real e depois sim se deu conta ou foi alertado por alguém que aquele texto, “na verdade, não era verdade”. Bingo! É isto que o Dicionário de Oxford chama de pós-verdade.

Segundo a definição, o novíssimo conceito é formado por “circunstâncias pelas quais os fatos objetivos influenciam menos na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal”. Ou seja: há inúmeros conteúdos veiculados com diferentes versões dos fatos e você negocia seu significado, de acordo com seu interesse: ora acredita naquilo porque pode ser usado ao seu favor, ora despreza e/ou diminui a importância aquele portal, repórter ou responsável pelo texto. Em poucas palavras: dentre inúmeros conteúdos, escolhe-se em qual e quando acreditar.

Pós-Verdade é, então, notícia falsa?

Não. A pós-verdade fala bem mais da utilização e mesmo apropriação de um conteúdo (falso ou equivocado) que necessariamente da notícia “falsa” em si. Em um mundo repleto de polêmicas e aumento do número de discussões e atritos, em especial pela web, erros e mesmo criações por má fé seguem os mesmos rumos. Seu uso pela população é que é modificado.

É justamente neste contexto – potencializado pela Web 2.0 e pela velocidade na troca de informações pelas redes sociais – , que o conteúdo passa a não existir mais em si mesmo, mas sim no momento seguinte; após. Além disso, a época da busca do ideal (necessário, é claro) e da preocupação com a veracidade do conteúdo, “passou”. Na pós-verdade, você tem a sua própria, ainda que nem acredite de fato nela nem consiga convencer outras pessoas de seu caráter “científico” ou mesmo real.

Parece complexo e distante? Em um primeiro momento, talvez. Mas, faça um teste: abra seu perfil no Facebook ou mesmo alguma conversa em grupo no WhatsApp, por exemplo. Além de inúmeras bobagens, correntes e/ou memes do momento, anúncios e discussões vazias, você provavelmente verá alguma notícia que, no mínimo, deve ser discutida, passível de desconfiança.

Ficou mais comum? Sim. Até mesmo porque o Brasil possui uma das populações que mais acessa a internet no mundo. Com ágeis compartilhamentos e sem filtro (intelectual, até), muitos conteúdos são veiculados como se fossem “sérios”, verdadeiros. Ou seja, vivemos em um dos grandes “reinos” da pós-verdade.

Tal compartilhamento é tamanho que uma pesquisa realizada pelo BuzzFeed Brasil sobre matérias e reportagens da Operação Lava Jato veiculadas via Facebook, mostrou que “desde janeiro (de 2016), as 10 principais notícias falsas tiveram 3,9 milhões de compartilhamentos, reações e comentários, enquanto as 10 reportagens mais populares sobre o mesmo tema somaram 2,7 milhões de interações”, diz a publicação do site.

Segundo o BuzzFeed, os dados são referentes à “quantidade de engajamentos (compartilhamentos, reações e comentários) aos 10 principais links desde janeiro de 2016”. Fonte: Facebook, via BuzzSumo.

Dado interessante, correto? Sim, e fica mais: além de ler informações falsas, as pessoas reagiram a elas, comentaram e compartilharam as postagens. Na nova cadeia de comunicação, todos são emissores e mesmo propulsores de determinados conteúdos, que podem nem ser reais ou verdadeiros. 

Por fim, a pesquisa do BuzzFeed traz uma conclusão talvez óbvia, mas, ainda assim, preocupante: “de maneira geral, o desempenho das informações falsas (sobre a Lava Jato) no Facebook é muito superior ao das reportagens reais”, diz o texto.

Uma análise do BuzzFeed nos EUA também observou que boa parte dos conteúdos veiculados sobre as eleições no país eram falsos. Veja mais clicando aqui.

Ora, assim como o público é potencialmente produtor de conteúdo, nos tempos de pós-verdade, sites, notícias, fotos e outras imagens potencializam discussões e confundem as pessoas. Através da (Clifford Geertz) pós-verdade é possível então compreender o mundo contemporâneo, que envolve peculiaridades sociais, novos tipos de consumo e hábitos, muitas vezes ligados à cibercultura.

Há esperança? Como reagir?

No fim de março e início de abril deste ano, ao menos no Brasil, o Facebook começou de fato sua cruzada às notícias falsas e seu potencial uso pelos internautas. Talvez você tenha recebido um aviso semelhante a este no momento em que entrou em seu perfil na rede social:

Imagem: Reprodução

O aviso marca exatamente o início das ações contra a veiculação dos conteúdos “irresponsáveis”, que devem ser controlados à fim de evitar discussões vazias, a crença em notícias que não existem e, principalmente, que ajudem a evitar uma visão negativa da rede social de Mark Zuckerberg.

Segundo o portal da Rede de Jornalistas Internacionais (IJNet), o Facebook não está sozinho. Em reportagem publicada em 29 de dezembro de 2016, o IJNet publicou uma lista de ações que alguns veículos estão pondo em prática.

Uma das ações é do Washington Post, que criou uma extensão do Google Chrome para verificar tweets de Donald Trump, presidente dos EUA. O site Slate também construiu uma extensão: a “This Is Fake”, que “identifica os artigos no feed do Facebook que espalham intencionalmente informações e permite ao usuário dizer aos seus amigos quando estão compartilhando uma história falsa”, informou o IJNet. Até mesmo o Google, em 2016, informou que substituiria a seção “In the news” por algo como “notícias principais” – as mais confiáveis.

No Brasil, o site E-farsas colabora também para evitar que notícias (absurdas, em geral, mas também algumas “curiosas” e que incitam grande repercussão entre os internautas) sejam veiculadas e mesmo ganhem status de conteúdo “real”. O site, no entanto, segue sem ser tão conhecido pelo grande público, que em geral não tem tempo (ou mesmo disposição) para procurar mais de uma fonte (e mesmo palavras-chave em buscadores) sobre determinado conteúdo.

Independente de tais iniciativas, até mesmo por se tratar de um processo comunicacional via internet, cabe a nós, leitores, e a nós, comunicólogos, a responsabilidade de poder analisar de fato as reportagens e conteúdos e saber discernir o que é verdade ou não.

Um grande passo para isso pode ser literalmente lê-las e não somente ler suas manchetes e compartilhá-las com outras informações agregadas (os famosos “textões”, em geral agressivos, sem sentido ou coerência). Dando este pequeno passo, a compreensão do conteúdo (se as fontes ao menos parecem reais, texto bem escrito e coeso, dentre outros detalhes) se torna mais simples e, assim, possamos tentar nos livrar no futuro da conclusão óbvia de que a verdade ficou no passado. A pós-verdade orienta o presente.

Enderson Oliveira 

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