A cidade além das cenas: uma entrevista com Fernando Segtowick

Foto: Divulgação
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Famílias e seus problemas, angústias e aparências; uma versão não estereotipada de uma das principais lendas do estado; a maior manifestação religiosa do estado e do país como um “suspense” e mesmo drama pessoal e urbano. Dias (2001), Matinta (2010) e No movimento da Fé (2013). Em quinze anos, os curtas metragens de Fernando Segtowick, como estes citados, talvez já tenham conseguido demarcar (ou criar?) certo espaço e “aceitação”, seja pela crítica, seja pelo público. Mais que isso, suas obras audiovisuais contribuem ou mesmo expressam certa realidade contemporânea da Amazônia; em movimento, fluida, problemática e instigante, que incita também transformações na fisionomia da cidade.
Levando em conta tudo isto, no início de abril de 2015, o grupo de pesquisa “Comunicação, Antropologia e Filosofia: estética e experiência na comunicação visual, audiovisual e literária urbana da contemporaneidade de Belém do Pará”, coordenado pelo Prof. Dr. Relivaldo Pinho, da Universidade da Amazônia (Unama), entrevistou Segtowick. A conversa é uma das que integrarão o documentário que está sendo produzido pelo grupo e será lançado no segundo semestre.
Durante a entrevista, teve destaque o desconhecimento da cidade para muitas pessoas, assim como para o próprio Fernando em alguns momentos. “Fui deixar minha empregada onde ela mora (…), passando o Aurá. E eu olhei e falei ‘gente, é em Belém e é um lugar completamente diferente, que eu nunca vou, nunca ouvi falar, não conheço, visualmente é super diferente… (…) Existem muitas Beléns dentro de Belém que eu não tenho acesso, mesmo trabalhando com audiovisual, com documentário” (…) Tem muitas Beléns que eu mesmo não conheço, que a gente não conhece e todas elas repletas de histórias incríveis”, conta.

Foto: Priscila Bentes
Foto: Priscila Bentes

O relato do diretor talvez possa lembrar ou ajudar a retomar a afirmação de Walter Benjamin, ao explicar que “Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perder numa floresta requer instrução” (Tiergarten, Obras escolhidas II). A reflexão do filósofo alemão ajuda a compreender, mais que os vídeos do roteirista, a surpresa do sujeito belenense ao se deparar com locais que considera realidades diferentes e mesmo distantes das que está acostumado.
O conhecimento de tais caminhos, rotas e trajetos podem colaborar para a produção – ou mesmo percepção – de “novos” personagens, realidades, situações, que podem ou não serem transformadas em matéria prima para a produção de seus curtas. Indo além, é justamente tal atenção à realidade e reconhecimento e identificação por parte do público que, de acordo com Segtowick, chama a atenção para seus filmes. “As pessoas querem ver os filmes pelos personagens, por mais mirabolante que sejam (…). Eu vi que as pessoas querem os personagens, é o que liga as pessoas, é o que identifica”, explica. Talvez isto ajude a explicar o reconhecimento do curta metragem Dias(2000), sua primeira obra e mais icônica ao se falar da Belém contemporânea.
Neste sentido, no artigo “Antropologia, Cinema e Cidade: Representações de Belém do Pará em Dias”, Relivaldo Pinho explica que “enquanto ficção, Dias não pretende ser um reflexo da realidade. Pretende se juntar a ela na tentativa de representá-la e de fazer surgir novas formas de vê-la, novos ângulos em busca de novas configurações identitárias”.

Foto: Relivaldo Pinho
O monumento do vazio: a fisionomia noturna do Mercado de São Brás até anos atrás era marcada pelo abandono. Foto: Relivaldo Pinho

Como exemplo atual, Segtowick citou as batalhas de rap que ocorrem semanalmente em frente ao mercado de São Brás: “É um espaço público super importante para a cidade, histórico, mas completamente abandonado e você vê jovens, através da música, do grafite e de várias outras manifestações reocupando aquele lugar e ressignificando o espaço através da sua manifestação”, destaca.

Foto: Maycon Nunes
Mercado de São Brás e sua ressignificação, ao menos nas noites de sábado. Foto gentilmente cedida por Maycon Nunes.

A própria discussão entre o que seria ou não o “espaço da periferia” está cada vez mais fluida, em um limiar complexo que envolve geografia e processos de identificação. “Em Belém a diferença entre área nobre e periferia não é tão grande. O Jurunas é praticamente Batista Campos, Canudos é São Brás, é Guamá… Belém é uma cidade que gosto porque é muito misturada. Não é difícil você encontrar em um restaurante o cara mais rico da cidade ou no Círio de Nazaré estar puxando a corda. Belém não tem como negar essa efervescência, essa mistura”, destaca Fernando.
No artigo citado, Pinho explica que “o ambiente urbano não seria mais um local hierarquicamente definido por espaços ou classes sociais, ou de uma definição estamental de culturas, não mais um espaço onde um estilo arquitetônico ou comportamental prevalece, onde o indivíduo se reconhece como pertencente a um espaço e um tempo determinado e coerente, e sim como um lugar onde múltiplas realidades estão presentes, múltiplos espaços, múltiplas vivências na experiência citadina”.


Assim, essa experiência é muitas vezes fragmentada. “A cidade é um espaço onde as pessoas convivem o tempo todo, mas elas não se conhecem. Podem estar uma do lado da outra, pode uma influenciar na vida da outra sem se conhecerem”, relata Fernando se referindo não somente à capital paraense, mas às metrópoles como um todo.
Nesta Belém, ou mesmo nestas várias cidades que a compõem, criam e recriam, é que a paisagem urbana vai sendo modificada. Aos passantes, pesquisadores e curiosos, talvez reste observá-la para tentar compreendê-la, evitando assim a expressão facial de surpresa e mesmo choque, como dos personagens de Dias em sua últimas sequências diante não somente de um acidente, mas de uma “nova” cidade, uma nova fisionomia.

Texto originalmente escrito por mim para o blog “Fisionomia Belém”, do grupo de pesquisa “Comunicação, Antropologia e Filosofia: estética e experiência na comunicação visual, audiovisual e literária urbana da contemporaneidade de Belém do Pará”

 

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